A inflação em cada moeda (Parte 1/2)

Agora que você já sabe o que é inflação (O que é inflação 1? e O que é inflação 2?) vou contar um pouco sobre a evolução histórica dos preços no Brasil e os planos econômicos implementados neste período, com destaque para o principal deles, o Plano Real.

Pretendo dividir esse texto em duas partes. Hoje vou me estender de 1942 a 1989 e na segunda pretendo concluir essa história de altos e muito altos.

De antemão gostaria de ressaltar que não sou historiador, logo a análise histórica não será o foco desta publicação. Isso talvez leve os amantes da história a julgarem meu texto raso. Também não pretendo aqui mostrar todas as nuances econômicas decorrentes nos períodos citados, bem como não pretendo destacar as causas da inflação e todo o arcabouço teórico envolvido no período. O que quero é apresentar para vocês um grande resumo, uma introdução ao assunto. Feitas as ressalvas, vamos adiante.

O índice mais antigo do país ainda vigente é o IPC da FIPE, cuja série histórica inicia-se em fevereiro de 1939. Este índice, que já teve muito mais prestigio do que hoje, perdeu espaço com o surgimento do IPCA-IBGE no inicio da década de 80 (índice de inflação oficial atualmente).

Em função de o IPC-FIPE ter uma “longevidade” maior usá-lo-ei (tô ficando xique hein!?) para mostrar a evolução da inflação no Brasil. Destaco que, apesar de algumas diferenças metodológicas, estes índices tem uma correlação elevadíssima, ou seja, as conclusões obtidas através da uma análise pautada no IPC-FIPE deverão ser similares às apuradas utilizando-se o IPCA-IBGE.

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Nesse gráfico mostro o quão aderentes são as séries do IPC-FIPE e IPCA-IBGE (de jan/80 à set/14). O destaque triste é que a inflação no Brasil superou os 80% ao mês, AO MÊS! O ponto positivo é que isso já passou. UFA!

Em função de a série ser muito volátil (ter grandes oscilações – veja gráfico abaixo), até mesmo em função da metodologia aplicada antigamente, passarei a fazer as análises com a inflação acumulada em 12 meses, o que acaba suavizando a curva graficamente.

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Acumular em 12 meses nada mais é “juntar” todas as variações mensais da inflação em um período de 12 meses. Por exemplo: a inflação entre mar/91 à fev/92 (12 meses) foi de +486,05% (fato verídico)) sendo as taxas mensais podem ser vistas na tabela abaixo.

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A fim de proporcionar uma melhor visualização gráfica dos dados promoverei alguns cortes temporais na série, pautado nas moedas vigentes à época. Destaco que os fatos e acontecimentos da época serão destacados nos gráficos com setas e retângulos azuis, enquanto os planos econômicos serão destacados com setas e retângulos vermelhos.

1- Inflação no Cruzeiro (Nov/42 à fev/67):

  • O Cruzeiro foi a moeda vigente no Brasil de Nov/1942 à fev/1967. Esse período foi marcado por grande instabilidade política no Brasil e no mundo.
  • Ao longo destes 25 anos, o mundo viu o término da 2ª guerra mundial e inicio da guerra fria. Tivemos também o inicio da guerra do Vietnã e o assassinato do presidente americano John Kennedy, fatos que mexeram com os ânimos e as expectativas das pessoas, impactando, desta forma, a economia.
  • No Brasil GV saiu, voltou e se suicidou, JK fez 50 anos em 5, Jânio renunciou e o medo comunista pairava no ar, até que os milicos tomaram a bagaça.
    • Ao longo das décadas de 40, 50 os grandes planos econômicos (planejamento) visavam desenvolvimento industrial e de infraestrutura.
    • Na década de 60 buscou-se restaurar o crescimento perdido em períodos anteriores e a estabilidade de preços, ambos através do Plano Trienal. Este plano fracassou exatamente nas reformas estruturais que se propunha a fazer, dado um cenário de instabilidade política que rondava 63 (véspera do golpe militar).
    • Assim que assumiram, logo em 64, os militares lançaram o PAEG (Programa de Ação Econômica do Governo 1964-1966) que visava o crescimento e controle da inflação. O plano até obteve relativo “sucesso” no que tange a inflação, mas o crescimento não foi restaurado.
  • A instabilidade política se refletia muito na inflação, pois já vimos em posts anteriores (leia) que as variações de preços também refletem  as expectativas dos agentes econômicos (produtores e, em alguma medida, consumidores) . Destaco também que muito do crescimento e do desenvolvimento industrial desta época foi financiado via inflação, ou seja, financiavam-se as obras públicas através da impressão de moeda:  o excesso de moeda deixa as pessoas com mais dinheiro disponível, que compram mais e geram mais inflação, caso a oferta não acompanhe a maior demanda por produtos e serviços.
  • Nesse período o Brasil ainda dependia muito da importações de produtos, ficando bastante exposto às oscilações cambiais, o que acabava influenciando a inflação.
  • Destaco que nossas exportações eram concentradas em alguns (relativamente poucos em comparação com hoje) produtos agropecuários; assim, parte importante do nosso crescimento ficou suscetível aos ciclos de produção agrícolas e às intempéries climáticas. Em outras palavras, quando tínhamos problemas nas safras de alguma das commodities exportadas, a receita com as vendas para os outros países caia, derrubando assim a balança comercial. Esse déficit gerava descontrole nas contas públicas, atribuindo ainda mais incertezas quanto ao país honrar suas dívidas internacionais.

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2- Inflação no Cruzeiro Novo (fev/67 a mai/70):

  • O Cruzeiro Novo foi uma moeda de transição. O plano era simples. Queriam que o Cruzeiro (o velho) ficasse menos valorizado. Para isso criaram uma moeda nova (Cruzeiro Novo) com 3 zeros a menos (1000 cruzeiros valiam 1 cruzeiro novo) e depois voltariam com o Cruzeiro. A ideia é simples e vocês verão que tem um pouco disso no plano real.
  • Nesse período o mundo estava no auge da guerra fria, representado pela corrida espacial.
  • No Brasil a ditadura também estava no auge (em 68 viria o AI-5).
    • Foi lançado o Plano Decenal, que visava o crescimento de longo prazo.
    • Em 67 lançou-se o PED (Programa Estratégico de Desenvolvimento 1967-1970), que era parte do Plano Decenal e visava o crescimento baseado no capital privado, ao invés do fortalecimento do estado. Este plano, juntamente com o PAEG, estruturaram os caminhos para o crescimento ao longo da década de 70 (milagre econômico).
    • O MBAG (Metas e Bases para a Ação de Governo) era uma cartilha que pretendia colocar o país entre os desenvolvidos em 30 anos. Esta não vinha para substituir os outros planos, sim complementá-los.
    • Pelo visto eles param de ligar tanto pra inflação que estava em trajetória descendente apesar de ainda estar em patamar elevado.
  • Adotaram-se as minidesvalorizações cambiais no Brasil, medida que visava reajustar a taxa de câmbio periodicamente seguindo algum indicador, a fim de manter o cambio real estável.

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3- Inflação no Cruzeiro II (mai/70 a fev/86):

  • O começo deste período de 25 anos (duração do cruzeiro II) foi muito bom, em termos econômicos, para o país. A inflação estava relativamente baixa (taxa média de cerca de 18% em 12 meses entre jul/70 e inicio de 1973) e o crescimento era galopante.
    • O 1º PND (Plano Nacional de Desenvolvimento ) foi um sucesso, proporcionou crescimento robusto entre 72 e 74, e a inflação exibia taxas inferiores a períodos anteriores.
  • Nesse período o cenário internacional foi o que mais prejudicou o Brasil. Dois choques do petróleo chacoalharam a economia mundial, forçando até aos EUA a praticar um forte aumento na taxa de juros.
    • Em 1973 ocorreu o 1º choque do petróleo, que fez com que a inflação começasse a decolar; o 2º choque (1979) colocou a inflação nas alturas.
    • Foi implementado o 2º PND (1975-1979) com o objetivo de manter o crescimento observado em anos anteriores. Esse plano acabou sendo um desastre, pois a inflação provocada pelo 1º choque do petróleo corria as contas públicas, o péssimo desempenho fiscal inviabilizava outra política expansionista e o 2º choque do petróleo veio pra jogar a pá de cal no plano. As dividas firmadas em dólares dispararam com a alta da moeda fruto do choque, acabando com as finanças brasileiras.
  • A situação global piorou muito nos 80. Os investimentos para o Brasil secaram, ainda mais quando o México declarou moratória (na época, se ainda não é assim, para os investidores “emergente latino é tudo farinha do mesmo saco”), enterrando o país num colapso econômico – o que acabou fazendo com que aquele período ficasse conhecido como década perdida.
  • Logicamente tudo que tá ruim pode piorar, e o país engatou uma crise política, aumentando ainda mais as incertezas e prejudicando as já minguadas intenções de investimentos: o Brasil era muito arriscado. A ditadura militar ruiu depois do movimento Diretas Já.

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4- Inflação no Cruzado (fev/86 a jan/89):

  • A inflação já não podia ser deixada de lado, tendo se tornado o grande problema da economia. Logo os planos deveriam colocar a inflação como prioridade em detrimento da preocupação com  o crescimento .
    • OBS: Não sei se vocês repararam, mas no gráfico acima beiramos os 250% de inflação ao ano e isso vai piorar.
  • No inicio de 1986 foi adotado o plano Cruzado. Criou-se outra moeda que, pra variar um pouco, tinha 3 zeros a menos, o Cruzado. O cruzeiro (a moeda anterior) estava super desvalorizado e 1000 cruzeiros passaram a valer 1 cruzado.
  • Alô alô Argentina, presta atenção nesse tópico! O plano Cruzado foi um conjunto de medidas econômicas que, entre outras coisas, congelou os preços e corrigiu (aumentou) os salários. A moçada saiu comprando tudo que via pela frente. Não deu outra. Os produtos acabaram. Seja porque não tinha mesmo o produto ou porque os comerciantes o escondiam. Isso mesmo, o governo tirou a rentabilidade dos comerciantes e eles simplesmente diziam que não tinham. O governo no auge da sapiência pensou: “- Como solucionar esse problema de escassez/ocultação de produtos? Liberamos os preços e o mercado se corrige?” Não, o Sarney criou fiscais, “os Fiscais do Sarney”, em grande medida os próprios cidadãos, que denunciariam à policia quem escondesse ou aumentasse os preços dos produtos. Piadaaaaaaaaaaaa!!!! Muita gente foi presa em função da caguetagem. O governo ao invés botar ordem na casa, eles colocaram consumidores e comerciantes uns contra os outros. O ano de 1986 era eleitoral (o 1º democrático do país) e em ano eleitoral vocês sabem que pros governantes vale tudo.
  • O plano cruzado até que obteve “sucesso” temporário: a inflação de fato recuou enquanto os preços permaneceram congelados, mas esse recuo da inflação era artificial e o Brasil sofria muito com o desabastecimento.
  • Passada as eleições eles resolveram corrigir esse método artificial de controle de preços. Decidiram então soltar os preços represados e deram o nome a esse pacote de decisões de plano de Cruzado II.
    • Aumento de impostos, da indexação e da carga tributária. Pretendia-se colocar ordem nas contas do governo. Mas isso seria colocado nas costas da população, ou seja, mais inflação pra moçada.
  • Tivemos até panelaço, tipo hermanos mesmo, só que no Brasil ficou conhecido como “Badernaço”. (manifestação em Brasília que descambou pra saques, depredações e incêndios)
  • Com a liberação dos preços, o mercado corrigiu o represamento e a inflação começou a tomar corpo novamente ao longo de 87. Isso abalou as contas do governo, pois ampliou ainda mais o déficit público. De maneira simples, pode-se dizer que o déficit publico ocorre quando os gastos do governo são maiores do que as receitas (arrecadação de impostos). Dentro dos gastos estão os títulos públicos vincentes, aqueles que o governo emitiu em períodos anteriores e tem que pagar agora. Como alguns de vocês devem saber, dentre os diversos tipos de títulos do governo, alguns remuneram a inflação do período somada a alguma remuneração, ou seja, grosso modo, uma pessoa que compra um título do governo a R$100, depois de um ano (período tomado para o exemplo) tem direito de receber R$100+remuneração, sendo que essa remuneração é em alguns casos inflação+taxa. Se a inflação no ano em que a pessoa ficou com o titulo do governo foi de +6% a pessoa tem direito a receber R$106+taxa acordada. Contudo, se a inflação foi 200% ao ano, como já foi evidenciada em tópicos anteriores, a pessoa tem direito a receber R$300+taxa. Isso significa dizer que para que a dívida do governo não se ampliasse no período, o mesmo teria que aumentar a arrecadação (impostos) mais do que o crescimento da inflação, ou seja, “se a população corresse o estado pegava e se a população ficasse a inflação comia”.
  • Para tentar diminuir o déficit público em jun/87 foi apresentado o Plano Bresser. Novamente congelaram os preços, que desta vez eles “meio que aprenderam” um pouco com os erros dos “Cruzados” (I e II), e criaram a URP (Unidade de Referência de Preços), que servia para corrigir preços e salários. OBS: Deu ruim. O plano fracassou também, eles precisariam se reinventar.
  • OBS: Chegamos a superar 1000% de inflação em 12 meses (gráfico abaixo).

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4- Inflação no Cruzado Novo (jan/89 a mar/90):

  • Eles tentaram se reinventar, criaram o Plano de Verão, e foram agregando novas invencionices aos fracassos anteriormente consagrados.
  • Veja se eu já não contei essa história antes:
    • Criaram uma nova moeda, o Cruzado Novo, que novamente tinha 3 zeros a menos que a anterior. (já contei isso antes)
    • Permaneceram com o congelamento de preços (dejavu)
    • Permaneceram com o congelamento de salários (játivi)
    • Modificaram o rendimento da caderneta de poupança (olha nois aí traveiz)
    • Invencionices:
      • Extinguiram o antigo fator de correção monetária.
      • Atrelaram inicialmente a moeda ao dólar (isso será importante, guarde isso que vai ser reutilizado no plano real).
    • O que é que vocês acham que aconteceu? Deu ruim traveiz. E a nossa inflação já estava chegando lá na lua. Essa moeda não durou muito.
      • OBS: Beiramos 6000% de inflação em 12 meses (gráfico abaixo). Desculpem-me os acadêmicos que discordam, mas isso é sim hiperinflação.

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Por hoje chega. Vou deixar as atrocidades econômicas do Collor para a próxima publicação, bem como os louros do Plano Real.

2 comentários sobre “A inflação em cada moeda (Parte 1/2)

  1. Pingback: A inflação em cada moeda (Parte 2/2) | Ministério da Fazendinha

  2. Pingback: A cama de São Paulo | Ministério da Fazendinha

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