O que diabos é inflação? Parte 2 de 2

Passadas as eleições, pretendo hoje dizer como a inflação “come” seu salário, sem que seja acusado de partidário. Vale lembrar que perguntas, sugestões e críticas serão bem vindas.

Se você ainda não sabe o que é inflação ou se já ouviu falar e não sabe direito o que é ou até mesmo tem uma vaga ideia, mas quer saber mais, esse texto (em conjunto com o do dia 20/10/2014, leia) talvez possa lhe ajudar.

Primeiramente farei uma generalização e posteriormente tentarei trazer um pouco mais para a realidade. Vamos supor que a cada 12 meses o salário das pessoas seja reajustado pela taxa de inflação acumulada período imediatamente anterior sem reajuste.

Por exemplo: em janeiro de um ano você entrou em um emprego e ganha R$ 100. A “cesta de bens” (explicada na publicação de segunda-feira) é composta por 100 itens e custa os mesmos R$ 100 (Preço=R$1/item). No mês seguinte você ganhará os mesmos R$ 100, só que os bens da “cesta” sofreram um reajuste homogênio de 1% (seja por qualquer motivo). Logo a “cesta” agregada passou a custar R$ 101, ou seja, você já não pode mais consumir os 100 itens que você consumia, pois não tem mais dinheiro pra comprá-los, podendo desta forma adquirir apenas 99 itens.

Conforme citado anterior, o seu salário, por suposição, será reajustado somente daqui 12 meses, mas a inflação vai te tirando a oportunidade de consumir os mesmos bens que você adquiria quando foi contratado. O gráfico abaixo ajuda na explicação:

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Apenas a título de exemplo nesse exercício supus uma inflação de 1% ao mês, o que não condiz com a realidade. Mas vale a penas ilustrar que no final de um ano você deixará de consumir ao todo 66 itens da cesta (de 1200 possíveis caso não houvesse inflação (100 da cesta vezes 12 meses)). Repare que os 66 itens não serão deixados de serem consumidos em apenas um mês, mas sim no acumulado do ano. Veja a tabela abaixo.

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No caso estaríamos supondo uma inflação de 12,68% ao ano, o que está longe da realidade atual. Já até imagino as perguntas: – Ministro, mas a inflação é uma coisa ruim? Ela podia ser negativa então? Seria melhor pro trabalhador, não?

A resposta é não. Não seria melhor para o trabalhador. Simplificando uma visão sobre deflação, trata-se de uma queda no nível dos preços pode ser gerada, grosso modo, ou por excesso de oferta de produto ou por demanda insuficiente (tradução: caiu ou por muito produto, as vezes por alta produtividade, ou por não ter ninguém pra comprar). Nessas duas situações a receita (quantidade vendida vezes o preço) das empresas pode cair (comum) e, em alguns casos, os empresários se verão forçados a reduzir o quadro de funcionários (para tentar reduzir os custos). Ou seja, quem entra no cano é o próprio trabalhador, que deixará de comprar e causará mais deflação e desemprego.

Entendido o quão ruim pode ser a deflação, tentar manter a inflação em zero pode ser muito arriscado pois devido as oscilações da economia, seria muito arriscado ficar tão próximo do campo negativo dado que um pequeno choque poderia jogar a economia em um espiral deflacionário (no popular, pode ser considerado uma margem de segurança).

Antes que me perguntem eu digo: – Sim, o empresário visa lucro! – Por qual motivo alguém sairia do conforto do seu lar, tomaria o risco de se produzir algo, se não tivesse remuneração (lucro)? “Caridade” (fundações, ONGs, etc.), o que não é de feitio de muitos, ou por que é o próprio Estado (ainda assim há controvérsias), entre outros. O fato é que o empresário quer ser remunerado por seu risco, ou seja, ganhos acima dos custos.

Mas não vim discutir as causas da inflação ou o espírito dos empresários, pelo menos não nesse momento. Em suma, a inflação é um mal necessário.

Voltando ao nosso exemplo só que com dados efetivos. Reproduzi o exercício nos mesmos moldes do feito acima só que desta vez usando as variações mensais oficiais do IPCA (IBGE) ao longo 2013 (+5,9%). Com efeito, chegamos ao gráfico e tabela abaixo:

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Destes dados acima se deriva que se cada item custasse R$ 1,00 no inicio do ano (hipótese) ao término de 2013 você deixaria de consumir 32 itens em 2013. Mas como cada item não custa R$ 1,00, dentre 1200 itens que você consumiria ao longo de 2013, caso a inflação não existisse, você consumiu 1168. Sad but true!

Veremos adiante o que é que acontece com as séries de salário e preços ao longo dos anos, incluindo aqui os reajustes salariais e praticando a premissa de que será recomposto ao salário a inflação acumulada no ano anterior (o que em alguns casos pode não ser verdade).

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Todos os trechos vermelhos entre as linhas bordô e azul representam um volume de bens que deixaram de ser consumidos. Acredito que podemos extrair desse gráfico duas evidências imediatas:

  1. Toda inflação (baixa ou alta) faz com que deixamos de consumir um montante de bens;
  2. Quando a inflação é pequena (2006) perdemos menos (área menor) do que quando temos uma inflação maior (2002/2003).

Em outras palavras, quando temos uma inflação pequena perdemos menos ao longo do ano em que não temos nosso salário corrigido.

Existem diversos percalços que devemos citar. O primeiro é que não é todo mundo que tem o salário corrigido pela inflação. Muitos têm o dissídio de um índice de inflação (não necessariamente o IPCA) acordado entre empregador e empregado, mas outros nem tem seus salários corrigidos. O melhor caso é quando os empregados tem um ganho real, que é a recomposição do salário mais um percentual, ou seja, um ganho acima da inflação.

Mas inflação é um tema muito delicado. Note que até no melhor caso (ganho real do salário) em alguns casos pode ser ruim, pois se todos tivessem ganhos reais, a expectativa de inflação para o ano seguinte subiria, pois muitos iriam comprar após o dissídio, o que efetivamente gera mais inflação.

Outro ponto de percalço é que a “cesta de bens” é genérica, referindo-se ao Brasil como um todo, ou seja, é uma lista de bens “média” consumida entre os brasileiros. O ideal seria que você consumisse uma cesta “pessoal” com inflação menor do que a oficial e tivesse o reajuste salarial pela inflação maior (a do Brasil). Mas como eu disse, a inflação é delicada. Se todos fizessem isso, com a reponderação da POF, a “cesta” de inflação menor seria mais próxima a oficial e os ganhos se esgotariam naquele momento.

Conclusão

A conclusão que eu gostaria evidenciar por fim, além de tentar explicar os impactos da inflação no seu bolso, é que inflação menor e controlada é melhor do que uma inflação maior. Contudo deflação, ou inflação baixíssima, é algo ruim.

Quando um governo assume um compromisso de inflação (+4,5% caso verídico atual para o país), ele avaliou que este patamar escolhido é, entre outras coisas, um “mínimo ótimo”, ou seja, algo que será saudável para o país e que não acabará com o poder de compra do trabalhador demasiadamente.

Logo honrar esse compromisso deve ser uma das prioridades no governo, pois além de tirar credibilidade do poder central, pode causar mais inflação. Quando não se acredita que o governo persegue uma meta, as expectativas desancoram (tradução: as empresas veem que o governo não vai mais cumprir a meta estabelecida, ou não tem tal meta como prioridade, e reajustam os preços acima do que a própria empresa acha que vai ser, a fim de se proteger de uma inflação maior, o que acaba concretizando no fim uma inflação maior). Na tabela abaixo, oficial do Banco Central, a linha expectativa, mostra o quanto a inflação foi maior ou menor por conta deste item.

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As células vermelhas são os anos em que a inflação poderia ter sido menor se as expectativas estivessem controladas. As células verdes são os anos que a inflação foi menor, pois as expectativas foram negativas.

Cheeeegaaa! Falei demais e tem muito mais. Inflação é um tema muito extenso. Eu restringi o impacto deste dragãozinho apenas ao salário. Ainda tem o impacto no resto da economia toda, investimentos e tudo mais, mas esses serão temas futuros, por hoje chega. Obrigado pela sua leitura e Tchau!

4 comentários sobre “O que diabos é inflação? Parte 2 de 2

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